Na última semana tive a oportunidade maravilhosa de conferir a peça teatral “O Caso dos Irmãos Naves”, a história de dois irmãos (Sebastião e Joaquim) que foram torturados brutalmente e condenados injustamente por um crime que não cometeram e que nem existiu, na cidade de Araguari, no Triângulo Mineiro. Vale lembrar que o caso ocorreu em 1937, época em que foi instaurado o regime ditatorial de Vargas. A condenação dos Naves foi considerada um dos maiores erros judiciais do Brasil. Uma história triste e verídica – o que a torna mais triste ainda.
Sabemos que os sistemas brasileiros Judiciário e Penitenciário são falhos e, em muitas vezes, a sociedade ensandecida por justiça dá seu próprio veredito, mas não entende a pressão e a complexidade da democracia nos processos. Relembre o caso da Escola Base. Agora considere o julgamento dos Nardoni, provas, sempre as provas, sem elas qualquer julgamento é arriscado. Mas não estou aqui para ficar do lado de ninguém e muito menos para discutir sobre o Judiciário, que deveria funcionar, mas quero focar nas forças de segurança que, geralmente, usam da violência para coibir o crime, justificando que a Justiça tarda e falha. E isso não é um ato criminoso?
Quem me conhece sabe o quanto me revolto com a polícia do Brasil. Se na época da ditadura vários irmãos naves foram torturados, humilhados e tiveram seus direitos e esperança massacrados, me questiono se ainda não vivemos num regime TOTALitário em pleno século XXI. Onde policiais são postos em cargos para amenizar a criminalidade no País e, ao contrário, motivam a injustiça, violência e instigam a corrupção ainda mais.
Policiais que deixam “passar batido” os direitos HUMANOS e tratam pessoas como animais, lixo e as únicas palavras de solidariedade são: “estrebucha, estrebucha”. Policiais que nos meus imaturos 18 anos entraram na frente do veículo em que eu estava para arrastar um andarilho pelo cabelo de dois a quatro quarteirões. Ah! Com os pés descalços e calcanhares no asfalto, sangue, bastante sangue. Policiais que espancam, matam, abusam do poder e acreditam estar fazendo justiça. A mesma polícia que tortura usuários e traficantes de drogas é aquela que recebe propina para “facilitar” a fiscalização do setor, a mesma que já vi USANDO e TRAFICANDO como qualquer outro meliante, independente de uma farda ou distintivo. Corruptos! Injustos! Tão criminosos como muitos criminosos!
Deixo claro: em momento algum defendo bandidos, mas sempre, defendo SERES HUMANOS. Acredito que você está questionando agora o que sempre me questionam: “quero ver se apontarem uma arma para a sua cara ou matarem algum familiar seu, se a posição será a mesma”, ou talvez “você fala isso porque nunca perdeu um filho para um FDP drogado e bandido”... Ok. Isso também é revoltante! Mas repito que não estou defendendo a corja de traficantes, estupradores e assassinos. Corro riscos todos os dias, como todo mundo! Eu só acho que a forma como a maioria das milícias, polícias civis e federais age - porque dos agentes que conheço nenhum me fez pensar o contrário – está completamente fora dos princípios básicos de humanidade e justiça.
Matar, maltratar NUNCA foi e JAMAIS será uma solução para o fim da criminalidade. Desde criança sei que violência gera violência. Se a Justiça não funciona e não mantém presos os criminosos, justificar sangue com sangue e fazer justiça com as próprias mãos não ameniza em nada o problema. Julgar e condenar são problemas do Judiciário, se um cara tem 50 passagens pela polícia e continua cometendo delitos, o problema também é do Judiciário. Se ele é cara de pau, zomba da Justiça, ganha milhões de acessos no YouTube, todo mundo ri e bate palma, o problema é da Justiça. Se a Justiça não cumpre com o seu dever, aí sim o problema é nosso! O que não quer dizer que sair matando vai acabar com todos os bandidos da face da Terra, porque não vai!

Há duas semanas em um bar, sentada na mesma mesa de um PM (mesmo há meses sem a carteira oficial da profissão e, ainda sim, portando arma de fogo na cintura), ele disse: “Bandido tem que morrer! Já tenho três processos por homicídio e vou me livrar dos três”. Não! Bandido não tem que morrer. Bandido tem que ir para cadeia e cumprir toda a pena, isento de qualquer mordomia. Da mesma forma que matam inocentes, quantos e quantos policiais também já fizeram o mesmo? O que difere tais de criminosos propriamente ditos?
São questões que ficarei maquinando a vida inteira. Sou defensora da vida e da justiça e serei contra qualquer atitude que faça cair por terra esses valores. Defendo a paz, repudio a tortura e o excesso da força policial. Num momento em que tanto se discute sobre os direitos humanos é irônico ver que as próprias instituições que fiscalizam o cumprimento da Lei, explicitamente, assumem uma postura contraditória aos seus deveres.
Que Deus nos abençoe e tenha compaixão da humanidade! Amém.